Na Alemanha, trens de passageiros movidos a hidrogênio começaram a circular em setembro de 2018. Esta aposta mais ecológica no ferroviário com baixa emissão de carbono funciona no plano tecnológico, mas a inovação espetacular ainda deve comprovar sua viabilidade econômica.

©Alstom/Michael Wittwer

É uma estreia mundial. Na Alemanha, dois trens de passageiros construídos pela Alstom e movidos a hidrogênio começaram a circular em setembro de 2018, em linhas comerciais regulares entre Cuxhaven, Bremerhaven, Bremervörde e Buxtehude, na Baixa Saxônia. Outros trens estão previstos na esteira desses pioneiros: o “Land” já encomendou à Alstom catorze outros « Coradia iLint ».

Este trem com « zero emissões » de partículas é mais respeitoso do ambiente e da saúde das populações do que os trens movidos a diesel. Seu desempenho é bastante competitivo relativamente ao térmico, já que alcança uma velocidade de ponta de 140km/h.

Tecnicamente,  o trem Coradia iLint leva no seu telhado um conjunto composto por uma pilha de combustível e um tanque pressurizado a hidrogênio armazenado em forma gasosa. A pilha gera eletricidade com a mistura do hidrogênio embarcado e do oxigênio presente no ar ambiente. Esta eletricidade alimenta a motorização elétrica do trem assim como os diferentes equipamentos a bordo (ar condicionado, portas, luzes, monitores de informação, etc.).

Além disso, baterias de íons de lítio, integradas na parte inferior do trem, armazenam o excedente de eletricidade gerada pela pilha de combustível e aquela recuperada pela energia cinética do trem nas fases de frenagem.

Os primeiros trens são abastecidos por uma estação móvel de distribuição de hidrogênio. Com um tanque cheio, os trens terão uma autonomia de 1 000 quilômetros, o suficiente para circular durante um dia inteiro. Uma estação de distribuição fixa será construída até 2021 pelo The Linde Group, especialista do tratamento e da transformação do gás. Os custos de investimento nesta estação estão avaliados em 10 milhões de euros, e deveriam ser financiados pelo governo alemão.

« Abandonar o diesel ferroviário »

Na falta de uma eletrificação das linhas, na Alemanha bem como no resto da Europa, praticamente um em cada dois trens é movido a diesel, salientou Didier Pfleger, vice-presidente da Alstom, quando foi celebrado o contrato com as autoridades regionais alemãs em novembro de 2017. Na França, onde 20% do parque de trens regionais ainda é movido a diesel, o exemplo é acompanhado com interesse pela empresa nacional francesa, a SNCF.

Para « abandonar o diesel ferroviário », o trem movido a hidrogênio é « uma solução muito interessante » mesmo se « ainda há problemas a resolver »

Determinado em « abandonar o diesel ferroviário », o presidente da SNCF fixou uma meta para a empresa pública: 2035. Considerando que o trem movido a hidrogênio é « uma solução muito interessante » mesmo se « ainda há problemas a resolver », Guillaume Pepy anunciou que uma primeira etapa seria ultrapassada este ano com a encomenda de protótipos « para o verão 2019 », provavelmente protótipos Alstom com data de entrega prevista para o início de 2022.

2022, é a meta fixada por Nicolas Hulot, o antigo ministro francês da Transição ecológica, para homologar um trem movido a hidrogênio. Também é a data marcada para a circulação dos primeiros trens movidos a hidrogênio pelo deputado Benoît Simian (LREM, Gironde), no relatório parlamentar que ele entregou no final do ano 2018 ao governo de Edouard Philippe, sobre « a ecologização do parque ferroviário ».

Afirmando que os trens não podem « ignorar a necessidade de almejar a neutralidade carbono », o deputado sugere que o Estado se concentre sobre o hidrogênio que permite uma maior autonomia.

Quanto às construtoras, a Alstom apresentou em novembro de 2018 uma versão francesa do seu trem a hidrogênio, fazendo votos para que as regiões se mobilizem e encomendem um trem para testar em tamanho real diferentes configurações antes de passar para a fase industrial em grande escala para substituir todas as locomotivas a diesel.

E a maturidade econômica?

Depois de testar seus protótipos com sucesso, e lançar seus primeiros trens com passageiros, a Alemanha demonstra a viabilidade técnica da propulsão por pilha de combustível a hidrogênio. Mas ainda fica por demonstrar a maturidade econômica dessa solução. Philippe Boucly, o presidente da Associação francesa para o hidrogênio e as pilhas de combustível, o reconhece implicitamente quando afirma que « as tecnologias do hidrogênio estão maduras, embora ainda precisemos de P&D e inovações para baixar os custos ».

A Alstom confirma a tendência anunciando seu objetivo de produzir até 2020 trens competitivos relativamente aos mesmos a diesel. Na Alemanha, é o land de Baixa Saxônia que financiou os primeiros trens movidos a hidrogênio. Na França, espera-se que as autoridades públicas deem o impulso necessário. Por muito tempo reticente relativamente a esta tecnologia, o Estado lançou em junho de 2018 um « plano hidrogênio » para fazer arrancar a atividade do setor. Mas os 100 milhões de euros para esses projetos são bem modestos comparados com os bilhões de euros investidos pelo governo alemão.

12/09/2019